Quando o assunto é Economia, o imaginário popular quase sempre cai no mesmo lugar: terno, mesa de operações, mercado financeiro. Mas quem trabalha na área sabe que essa imagem cobre apenas uma fatia do que o economista realmente faz.

Por isso o Blog do Vestibular entrevistou André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), uma das instituições de pesquisa econômica mais respeitadas do país. Ele estuda preços, inflação e poder de compra, e ajuda a produzir índices que orientam decisões de empresas, governos e famílias todos os dias.

Nesse bate-papo, ele respondeu às dúvidas mais comuns de quem está pensando em cursar Economia e explica como a formação na FGV prepara para um mundo cada vez mais complexo.

O economista trabalha só em banco?

A associação entre Economia e mercado financeiro é real, mas incompleta. "A formação em Economia abre portas em pesquisa, estatística, análise de dados, setor público, organismos internacionais, consultorias, empresas, educação, regulação, inovação, sustentabilidade e planejamento estratégico", diz André Braz.

No FGV IBRE, o trabalho é voltado para a economia real: preços, consumo, renda, mercado de trabalho, construção civil, aluguel, crédito, expectativas e atividade econômica. Os índices produzidos pela instituição, como o IGP-M, o IPC e o IPA, servem de referência para contratos, negociações e análises de poder de compra em todo o Brasil.

"O economista pode atuar onde houver decisão a ser tomada com base em evidências. E isso está em praticamente todos os lugares", resume o pesquisador.

Os índices econômicos que afetam sua vida

Já parou para pensar por que o preço do aluguel sobe? Ou por que o material escolar ficou mais caro? Por trás dessas mudanças, há equipes de economistas medindo a realidade com rigor.

"Um estudante sente isso quando percebe que o preço do transporte, da alimentação ou do material escolar mudou. Uma família sente isso quando vai ao supermercado, paga o aluguel, negocia um contrato ou planeja uma compra maior", explica André Braz.

Os índices de preços não são apenas números abstratos. Eles organizam a vida econômica do país e são produzidos por pessoas que escolheram uma carreira dedicada a entender e medir a realidade.

Precisa ser muito bom em matemática para cursar Economia?

Essa é uma das dúvidas mais comuns entre vestibulandos de humanas. A resposta de André Braz é clara e aliviante.

"Não é preciso ser um gênio da matemática para ser um bom economista. É preciso, sim, estar disposto a aprender matemática, estatística e métodos quantitativos, porque essas ferramentas ajudam a organizar o raciocínio e testar hipóteses. Mas Economia não é apenas cálculo."

Para o pesquisador, as habilidades mais importantes vão além dos números: visão social, capacidade analítica, curiosidade, senso crítico e habilidade para interpretar problemas complexos. "A matemática é uma linguagem importante, mas ela não substitui a pergunta principal: o que está acontecendo com as pessoas, com as empresas, com os preços, com o emprego, com a renda e com as escolhas da sociedade?"

Muitos alunos chegam ao curso com receio dos cálculos e descobrem que a Economia é, antes de tudo, uma forma poderosa de entender o mundo.

Como é o começo da carreira? O dia a dia de quem está começando

Para quem ainda está no ensino médio, pode ser difícil imaginar o que um economista júnior realmente faz. André Braz descreve o início da carreira no FGV IBRE com detalhes práticos.

"O dia a dia de um estagiário ou pesquisador júnior no IBRE costuma ser muito formativo. A pessoa começa lidando com bases de dados, conferência de informações, acompanhamento de indicadores, elaboração de tabelas, gráficos, relatórios e apoio a pesquisas."

O primeiro grande aprendizado, segundo ele, é entender que dado não é apenas número. "Dado precisa ser coletado, criticado, validado, comparado e interpretado." O segundo é transformar informação técnica em análise clara, útil e confiável.

"Para quem está começando, é uma escola muito rica. O jovem economista aprende a trabalhar em equipe, respeitar metodologia, cumprir prazos, olhar detalhes e, ao mesmo tempo, enxergar o quadro maior da economia brasileira."

Inteligência artificial, big data e ESG: o futuro da profissão

O mundo mudou e a Economia mudou junto. Três tendências estão redesenhando o mercado de trabalho para os economistas: inteligência artificial, big data e sustentabilidade.

"Hoje, o economista precisa lidar com volumes enormes de informação, novas fontes de dados, automação, modelos preditivos e ferramentas digitais. Isso cria oportunidades para quem gosta de combinar raciocínio econômico com tecnologia", diz André Braz.

Mas ele faz um ponto importante: a inteligência artificial não elimina o papel do economista. "Pelo contrário: aumenta a importância de quem sabe fazer boas perguntas, interpretar resultados e entender limites dos modelos. Dados por si só não explicam a realidade. É preciso teoria, contexto e julgamento."

A agenda ESG também abre espaço. Mudanças climáticas, transição energética, desigualdade, regulação ambiental e risco climático estão cada vez mais presentes nas decisões econômicas. "O economista do futuro será chamado a analisar não apenas crescimento e inflação, mas também impactos sociais, ambientais e institucionais."

O que a FGV oferece que faz diferença?

A formação acadêmica importa e, na visão de André Braz, o diferencial da FGV está em uma combinação específica.

"O grande diferencial está na combinação entre teoria econômica sólida, métodos quantitativos, visão aplicada e proximidade com o debate público."

Em uma instituição como o FGV IBRE, não basta dominar conceitos. É preciso interpretar a economia brasileira em tempo real, com todos os seus choques, incertezas e desafios estruturais. "A formação da FGV ajuda justamente nesse ponto: desenvolver rigor técnico sem perder a conexão com a realidade."

Além do conhecimento técnico, o curso prepara para comunicar bem. "Um bom economista precisa produzir conhecimento confiável e, ao mesmo tempo, explicar esse conhecimento de forma que ele seja útil para a sociedade."

Dica final: por que escolher Economia?

Se você está em dúvida entre Economia e outras carreiras, André Braz tem um conselho direto.

"Escolha Economia se você tem curiosidade sobre como o mundo funciona."

Segundo ele, é uma carreira para quem gosta de perguntar por que os preços sobem, por que alguns países crescem mais do que outros, por que há desemprego, por que as famílias mudam seus hábitos de consumo e como políticas públicas afetam a vida das pessoas.

"Não é uma escolha apenas para quem gosta de números. É uma escolha para quem quer entender escolhas humanas, conflitos, incentivos, desigualdades e possibilidades de transformação. A Economia ensina a olhar para a realidade com mais profundidade. E, quando bem usada, ajuda a melhorar decisões, instituições e vidas."

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