Profissionais formados em Direito atuam muito além dos escritórios e tribunais. Pesquisa em regulação de inteligência artificial, assessoria de relações internacionais em cúpulas como o G20 e o BRICS, e gestão de políticas públicas em prefeituras são apenas alguns dos caminhos possíveis para quem escolhe a carreira jurídica.
“A FGV me mostrou que o Direito pode dialogar com praticamente qualquer área.”
Neste dia do Advogado, conversamos com ex-alunos da FGV Direito SP e FGV Direito Rio que construíram trajetórias além do óbvio que se espera para um profissional do Direito: Naomi Nomura, pesquisadora no Reglab e secondee de Public Policy no TikTok, formada pela FGV Direito SP; Julia Gardel Khayat de Sousa, chefe de gabinete da Subprefeitura da Zona Sul do Rio de Janeiro, formada pela FGV Direito Rio; e João Carlos Cochlar de Oliveira, assessor de relações internacionais da Prefeitura do Rio de Janeiro, também formado pela FGV Direito Rio.
A ideia central do "Dia das Profissões 2026" é mostrar que as profissões podem ir além do óbvio. Em sua experiência dentro do Direito, como você acha que sua profissão reflete essa proposta?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
Ao longo da minha trajetória, percebi que a formação jurídica abre portas que vão muito além da advocacia tradicional, embora ela continue sendo uma base extremamente sólida para o desenvolvimento da minha carreira. Depois de atuar em escritório, hoje trabalho como pesquisadora em um centro privado de regulação de tecnologia (Reglab - Centro de Regulação e Estratégia) e como secondee de Public Policy no TikTok, atuando na interseção entre novas tecnologias, inteligência artificial, plataformas digitais e regulação, sempre com foco em como esses temas se conectam a políticas públicas.
Muitas das competências desenvolvidas no período como advogada continuam sendo centrais no meu trabalho: pesquisa aprofundada, pensamento crítico, atenção aos detalhes, capacidade de interpretar normas complexas, construir argumentos e dialogar com diferentes atores.
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
Na época que entrei na faculdade, imaginava que o Direito significava, principalmente, processos, tribunais, escritórios. Hoje, na Subprefeitura da Zona Sul, e tendo passado pela Câmara dos Vereadores, vejo que meu trabalho é muito diferente do estereótipo.
Passei pela advocacia, pela Câmara Municipal, como assessora parlamentar, e hoje atuo como chefe de gabinete da Subprefeitura da Zona Sul. Em cada uma dessas experiências, o Direito foi uma ferramenta diferente: para estruturar decisões, construir políticas públicas, mediar interesses e resolver problemas concretos da cidade. O Direito, para mim, e principalmente a forma de ensino da FGV, acaba sendo uma ferramenta para fazer a cidade funcionar melhor.
João Carlos Cochlar de Oliveira (FGV Direito Rio)
Atualmente, estou assessor de relações internacionais da Prefeitura do Rio de Janeiro. Atividade particularmente estratégica nos últimos dois anos, pelo fato de o Rio ter recebido cúpulas do G20, BRICS, além da pré-COP30, que reuniu mais de 300 prefeitos de cidades relevantes do mundo, bem como o Prêmio Earthshot.
Esta é uma atuação multidisciplinar, para a qual o direito é uma formação muito generosa. Abre portas para caminhos muito diferentes entre si: advocacia, magistratura, academia, gestão pública, relações internacionais, empreendedorismo, entre tantos outros.
O que significa "pensar fora da caixa" em sua profissão, e como isso pode ser aplicado no dia a dia de forma prática?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
Significa não aceitar a primeira resposta como definitiva e buscar caminhos diferentes quando os tradicionais não funcionam.
A ideia de que inovar nem sempre significa criar algo completamente novo, mas ter disposição para buscar respostas por caminhos menos convencionais quando os mais óbvios não são suficientes.
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
É entender que a lei não é um fim em si mesma, mas um instrumento para resolver problemas. Muitas demandas não se solucionam apenas com uma notificação ou uma decisão administrativa. É preciso reunir diferentes órgãos, ouvir moradores, comerciantes e usuários do espaço público e construir soluções juridicamente corretas, mas também viáveis na prática.
João Carlos Cochlar de Oliveira (FGV Direito Rio)
Para mim, significa partir da premissa de que todos os gostos e talentos podem tornar um estudante de direito um profissional especial. Mesmo quando parecem não ter a menor relação com a dogmática jurídica convencional. No meu caso, meu interesse por música, por exemplo, contribuiu para um trabalho envolvendo teoria do direito que foi um divisor de águas. A transdisciplinaridade não tem limites. Idiomas, economia, matemática, tecnologia, sociologia, psicologia ou relações internacionais, por exemplo, entre tantas outras áreas, podem ampliar a forma de compreender problemas e criar soluções. Na prática, isso significa levar para o trabalho referências que normalmente estariam fora do universo jurídico.
Quais oportunidades inesperadas você encontrou na sua carreira que desafiaram o estereótipo da sua profissão?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
Uma oportunidade que marcou a minha trajetória surgiu ainda durante a graduação, quando participei de uma competição de escrita acadêmica. A premiação foi um estágio de pesquisa de dois meses no O'Neill Institute for National and Global Health Law, de Georgetown University, em Washington, D.C., onde tive a oportunidade de trabalhar em projetos voltados à regulação de alimentos.
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
A maior delas foi descobrir e tentar diariamente entender a gestão pública. Na faculdade e nos escritórios, eu imaginava uma carreira voltada para a advocacia. A experiência como assessora parlamentar na Câmara Municipal despertou meu interesse pela elaboração de políticas públicas, e a atuação na Subprefeitura consolidou essa vocação ao me permitir acompanhar a implementação dessas políticas e ver seus efeitos concretos na cidade.
João Carlos Cochlar de Oliveira (FGV Direito Rio)
Eu não conhecia nenhum dos cargos que ocupei até efetivamente ocupá-los. Desde pesquisador pleno da FGV, assistente de pesquisa e sócio do Prof. Joaquim Falcão, até atuar como assessor de relações internacionais da Prefeitura do Rio, foram posições que eu sequer imaginava quando ingressei na faculdade. Eram oportunidades inéditas, mas para as quais me sentia positivamente desafiado, porque percebia que a formação que tive já me havia dado as ferramentas necessárias para aprender e buscar contribuir da melhor forma que pudesse.
De que maneira a FGV contribuiu para moldar sua visão de profissão, expandindo suas possibilidades além do convencional?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
A FGV mudou profundamente a forma como eu aprendi a pensar. No começo da graduação, o método socrático foi um grande desafio para mim. Eu era bastante tímida e não me sentia confortável para participar das discussões em sala e, por isso, comecei a buscar uma forma de me preparar melhor. Passei a ir além da bibliografia obrigatória, relacionando os temas das aulas com decisões recentes, artigos acadêmicos, debates regulatórios e acontecimentos da atualidade. Aos poucos, esse exercício me deu mais confiança para participar das aulas e transformou uma dificuldade inicial em uma das maiores motivações da minha trajetória acadêmica. Essa forma de estudar acabou contribuindo para que eu conquistasse o primeiro lugar da Bolsa Mérito Luiz Simões Lopes.
Mais do que isso, a FGV me mostrou que o Direito pode dialogar com praticamente qualquer área. Ao longo da graduação, tive a oportunidade de participar de projetos de pesquisa e extensão e competições acadêmicas internacionais que ampliaram muito a minha visão sobre a profissão, especialmente por meio do CEPI FGV Direito SP. Foi nesse ambiente que descobri o quanto gostava de temas relacionados à regulação da saúde, pesquisa aplicada e comecei a enxergar novas possibilidades de atuação para além dos caminhos mais tradicionais.
Tive o privilégio de aprender com professores que admiro profundamente, como Alexandre Pacheco, Daniel Wang, Clio Radomysler, Enya Costa, Guilherme Klafke, Juliana Palma, Marina Feferbaum, Monica Guise, Rabih Nasser e Roberto Dias. Cada um deles, à sua maneira, me incentivou a olhar para o Direito de forma interdisciplinar, sempre conectado aos desafios concretos da sociedade. Hoje, é uma alegria perceber como alguns desses vínculos continuam fazendo parte da minha trajetória de formas diferentes: Daniel é meu orientador no mestrado acadêmico da Escola; Alexandre Pacheco, que orientou meu TCC na graduação, segue sendo uma importante referência na minha trajetória profissional e Monica, que conheci ainda na graduação, hoje é minha liderança e mentora no secondment em Public Policy.
Para mim, isso simboliza muito do que a FGV representa. A relação com a Escola não termina na colação de grau. Ela continua evoluindo por meio das pessoas, das parcerias e das oportunidades que surgem ao longo da carreira. É muito especial perceber que professores que marcaram a minha formação seguem fazendo parte da minha trajetória profissional e acadêmica, agora em novos papéis.
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
A FGV me ensinou a enxergar o Direito de forma interdisciplinar. Além da formação jurídica, tive contato com pesquisa, arbitragem, direito administrativo, gestão de pessoas e políticas públicas. Isso ampliou minha visão sobre as possibilidades da profissão e mostrou que um bom profissional precisa compreender também gestão, economia, instituições e relações humanas. O contato com as diversas entidades, o método de ensino fora do convencional, buscando a participação ativa do aluno e não apenas a reprodução de leis, me ajuda a lidar com a vida real e o cotidiano desafiador
João Carlos Cochlar de Oliveira (FGV Direito Rio)
Destacaria a liberdade curricular. Sem abrir mão de um núcleo essencial de disciplinas, a possibilidade de complementar o currículo com matérias de outras escolas da FGV e atividades complementares amplia a capacidade de pensar o direito em diálogo com outras áreas do conhecimento. Na minha experiência, isso foi decisivo tanto para a qualidade da formação como na construção de uma trajetória profissional mais diversa e que mais me interessasse.
Como a sua profissão pode impactar positivamente a sociedade, indo além dos resultados imediatos e tradicionais?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
O Direito tem um enorme potencial de impacto porque dialoga com praticamente todas as áreas da sociedade.
Hoje, por exemplo, trabalho com temas como inteligência artificial, plataformas digitais e inovação regulatória. Muitas vezes, o impacto do nosso trabalho não aparece somente em uma decisão judicial, mas na produção de evidências para orientar políticas públicas, no desenvolvimento de pesquisas empíricas, no aprimoramento de produtos ou na construção de soluções que conciliem inovação, direitos fundamentais e interesse público
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
Minha trajetória me permitiu conhecer diferentes etapas da atuação pública: na Câmara, participei do processo de discussão e formulação de políticas; na Subprefeitura, acompanho sua execução. Isso mostra que o Direito pode gerar impacto muito além dos processos judiciais. Organizar o espaço urbano, melhorar serviços públicos, mediar conflitos e coordenar ações entre diferentes órgãos são formas de promover qualidade de vida para milhares de pessoas.
João Carlos Cochlar de Oliveira (FGV Direito Rio)
Um querido professor certa vez me disse que concurso não gera PIB. Muitas vezes, o impacto mais relevante de um jurista não está apenas em resolver um caso concreto mediante “caixinhas” formatadas, mas em ajudar a construir instituições mais eficientes, políticas públicas melhores e decisões mais adequadas. Quando o direito contribui para aperfeiçoar a forma como o Estado e as instituições funcionam, seus efeitos alcançam muito mais pessoas do que aquelas diretamente envolvidas em um processo.
Como os jovens podem conectar seus propósitos pessoais às escolhas profissionais, indo além do óbvio e criando um impacto real?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
Acho que tudo começa com autoconhecimento. Durante a graduação, fui descobrindo que o Direito oferece inúmeras possibilidades de atuação e passei a entender melhor quais delas mais faziam sentido para mim naquele momento da minha trajetória. Essa descoberta aconteceu aos poucos, por meio de pesquisas, estágios, conversas com professores e experiências que inicialmente nem faziam parte do meu plano.
Foi justamente esse processo de autoconhecimento que me fez perceber outro elemento constante na minha trajetória: a curiosidade.
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
Acho importante não escolher uma profissão apenas pelo cargo ou pelo mercado, vale a pena pensar no tipo de problema que você gostaria de ajudar a resolver - ao fazer esse exercício, percebe-se que existem muitos caminhos possíveis. O Direito, por exemplo, pode levar para escritórios, empresas, pesquisa, Legislativo, gestão pública ou Judiciário. O propósito normalmente está no impacto que você quer gerar, e não apenas no nome da profissão. Para mim, foi importante ver um impacto imediato e social nas ações provocadas pela minha profissão e meu emprego, por isso, me encontrei na gestão pública.
João Carlos Cochlar de Oliveira (FGV Direito Rio)
Ir além do óbvio requer coragem. Nem sempre a trajetória mais interessante é a mais previsível. Vale a pena cultivar os próprios interesses, investir em uma formação eclética e permanecer aberto a oportunidades que ainda nem existem no imaginário de quem está começando. Muitas das melhores oportunidades da minha carreira surgiram justamente porque eu estava aberto a explorar caminhos que não faziam parte do roteiro tradicional.
Que dica você daria a um jovem que está começando sua carreira, buscando uma profissão que esteja alinhada aos seus propósitos, mas que também tenha o poder de superar as expectativas e inovar?
Naomi Nomura (FGV Direito SP)
Eu diria para cultivar duas coisas: curiosidade e abertura. Curiosidade para fazer perguntas, buscar respostas além do esperado e nunca parar de aprender. E abertura para experimentar caminhos diferentes, mesmo quando eles não fazem parte do plano inicial.
Julia Gardel Khayat de Sousa (FGV Direito Rio)
Com certeza não tenha medo de experimentar áreas diferentes. Minha trajetória passou pela pesquisa acadêmica, grandes escritórios de advocacia, pela Câmara Municipal e hoje atuo no Executivo. Cada experiência desenvolveu habilidades que utilizo diariamente. Muitas vezes, a carreira não segue um caminho linear, e justamente essa diversidade de experiências permite enxergar oportunidades que você nem imaginava quando entrou na faculdade.
Dia das Profissões 2026
O Dia das Profissões 2026 é um convite para você ir além do convencional e construir uma carreira que realmente faça a diferença. Em um Brasil em constante evolução, a capacidade analítica, o pensamento crítico e a leitura de contextos são seus maiores aliados para unir pesquisa e estratégia em qualquer área de atuação.
Ao longo da entrevista completa percebemos que suas experiências podem oferecer perspectivas enriquecedoras, auxiliando na sua jornada de descoberta e na construção de um futuro profissional alinhado com as demandas de um mundo em constante evolução.
Direito
No curso de Direito da FGV, você encontra uma formação conectada aos desafios contemporâneos, com pesquisa, inovação e vivência prática. Com o método socrático, as aulas estimulam o pensamento crítico, a argumentação e a capacidade de tomar decisões diante de desafios reais da profissão, preparando o aluno par atuar em diferentes cenários e complexidades.
Quer conhecer mais sobre o curso de Direito da FGV? Acesse o site do Vestibular para saber mais sobre a graduação no Rio de Janeiro e em São Paulo.