Quando você pensa em Administração, quais profissões vêm à sua cabeça? Gestão de empresas? Mercado financeiro? Recursos humanos? Empreendedorismo? Esses são, sim, alguns dos caminhos possíveis. Mas a carreira em Administração pode ir muito além do que você imagina.

No Dia do Administrador, conversamos com ex-alunas das graduações de Administração de Empresas e Administração Pública para entender como o curso pode abrir diferentes possibilidades de carreira. Gabrielly Maia Vicente, formada em Administração Pública pela FGV EPPG; Daniela Garcia, formada pela FGV EBAPE; e Thaynah Gutierrez, formada pela FGV EAESP, contam um pouco de suas trajetórias e compartilham dicas para quem quer construir uma carreira na Administração.

Confira a entrevista completa abaixo:

A ideia central do "Dia das Profissões 2026" é mostrar que as profissões podem ir além do óbvio. Em sua experiência dentro da Administração, como você acha que sua profissão reflete essa proposta?

Gabrielly Maia Vicente (FGV EPPG): Atuo na área administrativa de uma cooperação internacional. O trabalho é muito dinâmico: atuo com a assessoria para os projetos que existem dentro da cooperação, com contratos, eventos, aquisições e viagens, entre outros processos, apoiando assim a implementação dos projetos e a chegada dos recursos na ponta.

Daniela Garcia (FGV EBAPE): Administração é uma formação generalista, mas, ao mesmo tempo, oferece ferramentas para atuar em diferentes áreas do mundo corporativo e do empreendedorismo. Com a formação da FGV EBAPE, senti-me preparada para construir uma carreira sólida, independentemente do caminho escolhido.

Thaynah Gutierrez (FGV EAESP): Quando alguém pensa em Administração Pública, geralmente imagina concursos, gestão de repartições, planejamento orçamentário, um campo mais burocrático e institucional, concentrado na presença direta do Estado na gestão pública. Na minha trajetória, essa formação virou ferramenta para articular políticas ambientais, climáticas e antirracistas: dirijo um instituto comunitário na periferia de São Paulo, assessoro pautas de racismo ambiental e clima em nível internacional no Geledés – Instituto da Mulher Negra e coordeno uma rede de organizações com atuação na agenda de adaptação climática antirracista. A administração, para mim, deixou de ser apenas gestão de processos e passou a ser gestão de justiça: pensar em como o Estado e as organizações podem responder às desigualdades que o próprio racismo, em todas as suas facetas e, especialmente, na sua dimensão ambiental, produz.

O que significa "pensar fora da caixa" em sua profissão e como isso pode ser aplicado no dia a dia de forma prática?

Gabrielly Maia Vicente (FGV EPPG): No dia a dia, precisamos compreender as diferentes realidades que existem dentro do Brasil, possibilitando o acesso de diferentes grupos a projetos de impacto (como, por exemplo, viabilizando a participação ativa de um grupo em determinada política pública). Pensar fora da caixa, nesse contexto, significa justamente isso: ir além do operacional e entender as necessidades de cada um para que todos possam participar e construir soluções que alcancem a todos.

Daniela Garcia (FGV EBAPE): "Pensar fora da caixa" muitas vezes virou sinônimo de inovação ou tecnologia, mas, para mim, significa principalmente encontrar formas não convencionais de resolver problemas reais. Portanto, não significa necessariamente criar algo extraordinariamente complexo. Muitas vezes, significa enxergar uma solução simples onde ninguém havia olhado antes.

Thaynah Gutierrez (FGV EAESP): Acredito que, para pensar fora da caixa, é importante reconhecer que instrumentos técnicos "neutros" (planos de adaptação municipal, mecanismos financeiros, indicadores) não são neutros na prática, porque afetam comunidades de formas diferentes. É papel da Administração Pública conciliar a universalidade dos instrumentos com o olhar prioritário para a redução de desigualdades. Pensar fora da caixa é usar essas mesmas ferramentas de gestão pública para colocar em pauta quem historicamente fica de fora delas: terreiros, quilombos, populações negras nas periferias, mulheres e crianças.

Quais oportunidades inesperadas você encontrou na sua carreira que desafiaram o estereótipo da sua profissão? De que maneira a FGV contribuiu para moldar sua visão de profissão, expandindo suas possibilidades além do convencional?

Gabrielly Maia Vicente (FGV EPPG): Apesar de ter formação em Administração Pública e conhecimentos sobre questões administrativas e de gestão pública, encontrei na FGV uma formação integrada, que me permitiu me adaptar a diferentes contextos e situações envolvendo gestão de projetos, gestão de riscos, planejamento estratégico, análise de políticas públicas e competências que vão além do que é ensinado na teoria.

Daniela Garcia (FGV EBAPE): Minha trajetória profissional passou por indústrias, países e funções bastante diferentes. A FGV foi fundamental para moldar minha visão profissional porque me ensinou que as possibilidades seriam muito maiores se eu mantivesse três pilares ao longo da minha trajetória: busca constante por conhecimento de excelência, disciplina para continuar me aprimorando e capacidade de transformar teoria em prática. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de estudar também em instituições internacionais, passando por experiências acadêmicas em Nova York, Copenhague e Amsterdã, e isso reforçou ainda mais o valor da base que construí na FGV EBAPE.

Thaynah Gutierrez (FGV EAESP): Uma das mais marcantes foi perceber que as comunidades de terreiro das quais faço parte e com as quais me engajo podem ser tratadas como empreendedoras de política pública, não só como beneficiárias de projetos, mas como produtoras de conhecimento e de solução. A FGV me deu ferramentas técnicas, de gestão, de análise de política pública e de pesquisa, mas o que mais expandiu minha visão foi poder usar essas ferramentas para investigar um problema que me atravessa: o legado do movimento negro nas lutas socioambientais e climáticas, tema da minha dissertação de mestrado. A instituição me deu rigor metodológico; a escolha do tema é onde trouxe minha própria pergunta para dentro da Administração.

Como a sua profissão pode impactar positivamente a sociedade, indo além dos resultados imediatos e tradicionais?

Gabrielly Maia Vicente (FGV EPPG): A possibilidade de atuar com múltiplos atores, governo, sociedade civil e iniciativa privada, nos permite construir projetos integrados, capazes de gerar resultados com grande impacto positivo. Acredito que a minha profissão possibilita que as metas saiam do papel e se tornem realidade nesse contexto.

Thaynah Gutierrez (FGV EAESP): Política pública bem-feita não se mede só pela entrega de curto prazo: número de projetos aprovados, editais lançados. O impacto mais profundo é estrutural: mudar quem senta à mesa quando as decisões são tomadas. Quando uma rede de mais de 70 organizações assina uma carta de posicionamento, ou quando uma comunidade tradicional passa a ser reconhecida como interlocutora legítima em política climática, isso muda relações de poder que vão durar muito além de uma gestão ou de um mandato. Acredito que minha profissão, hoje, nesse lugar de incidência política nacional e internacional, me permite contribuir com o que me cabe para essas transformações mais sistêmicas.

Daniela Garcia (FGV EBAPE): Hoje, atuo diretamente em projetos ligados à descarbonização do transporte (de ônibus públicos e caminhões comerciais à infraestrutura necessária para ampliar a adoção de veículos elétricos), buscando contribuir para cidades mais sustentáveis e para a mitigação dos impactos das mudanças climáticas. Acredito que desenvolvimento econômico e impacto positivo não precisam estar em lados opostos. O grande desafio da nossa geração é justamente encontrar modelos capazes de conciliar crescimento, viabilidade financeira, responsabilidade ambiental e benefícios sociais. 

Como os jovens podem conectar seus propósitos pessoais às escolhas profissionais, indo além do óbvio e criando um impacto real?

Gabrielly Maia Vicente (FGV EPPG): Acredito que o primeiro passo é entender que propósito e profissão não precisam ser coisas separadas. Existem organizações cuja missão, valores e visão estão diretamente relacionados ao nosso propósito e à nossa área de formação, e vale a pena pesquisar sobre isso antes de escolher onde atuar.

Daniela Garcia (FGV EBAPE): Acredito que o primeiro passo seja buscar ativamente entender o próprio propósito e aceitar que ele também pode mudar ao longo da vida. Isso exige autoconhecimento, curiosidade, perseverança e uma visão de longo prazo.

Thaynah Gutierrez (FGV EAESP): Prestando atenção ao que os incomoda no mundo e perguntando quais ferramentas técnicas eles podem aprender para agir sobre isso, não o contrário. Não é preciso escolher entre "profissão séria" e "causa que importa para mim": dá para usar a técnica como linguagem para fazer a causa ser ouvida em espaços que, de outra forma, ficariam fechados.

Que dica você daria a um jovem que está começando sua carreira, buscando uma profissão que esteja alinhada aos seus propósitos, mas que também tenha o poder de superar as expectativas e inovar?

Gabrielly Maia Vicente (FGV EPPG): Acredito que é necessário acumular o máximo de experiências possível: estágios, empresas juniores, PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) e projetos acadêmicos, antes de escolher definitivamente a área de interesse. Isso ajuda a entender quais são os interesses e as afinidades de cada um.

Daniela Garcia (FGV EBAPE): Faça tudo com excelência e seja coerente com os seus princípios. Ao longo da carreira, cargos e empresas mudam, mas seu nome, sua reputação e a forma como você trata as pessoas continuam acompanhando você. Invista constantemente em conhecimento, mas também em experiências que ampliem sua visão de mundo. Existe algo que considero ainda mais importante neste momento: em uma era de inteligência artificial e de acesso praticamente ilimitado à informação, o nosso diferencial será cada vez mais humano.

Thaynah Gutierrez (FGV EAESP): Não trate sua formação como uma caixa fechada, com um caminho único. As ferramentas que você aprende (gestão, análise, escrita técnica, negociação) servem para muito mais lugares do que o mercado tradicional sugere.

Dia das Profissões 2026

O Dia das Profissões 2026 é um convite para você ir além do convencional e construir uma carreira que realmente faça a diferença. Ao longo da entrevista completa, percebemos que essas experiências podem oferecer perspectivas enriquecedoras, auxiliando na sua jornada de descoberta e na construção de um futuro profissional alinhado com as demandas de um mundo em constante evolução.

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