O cinema brasileiro vive um momento glorioso de reconhecimento e êxtase por suas narrativas envolventes como foi o caso de Ainda Estou Aqui que já vimos por aqui no Blog do Vestibular. E nesse contexto, sabemos que a cultura é uma forma poderosa de trabalhar os estudos de forma criativa, seja nas suas diferentes vertentes, como a literatura, a arte, a televisão e o cinema.
No caso do vestibular isso não é diferente, pois o uso dos filmes permite aos alunos que se conectem não somente com histórias, mas com afetos, emoções e muitas vezes personagens políticos que remetem a conteúdos que podem de fato cair nas provas.
É o caso do “Agente secreto”, cuja ambientação ocorre na década de 1970, um filme repleto de camadas, mas em sua essência descortina a história de um professor de uma universidade federal, na área de tecnologia, que é perseguido por um poderoso empresário do ramo elétrico, ligado ao regime. Assim, o protagonista retorna de São Paulo para Recife, sua cidade natal, em busca de um refúgio seguro para ele e seu filho, que naquele momento está sendo cuidado por seus avós.
O filme ganhou o Globo de Ouro em duas categorias, melhor filme e melhor ator de filme dramático com Wagner Moura, além de inúmeros outros prêmios, como o de melhor ator e direção no Festival de Cannes e está indicado, inclusive, para o Oscar 2026.
Repleto de analogias, semiótica e metáforas, a obra é a pura essência de uma narrativa revertida em memória e política, sinônimo de como Kleber Mendonça identifica a sua forma de fazer cinema.
Desvendando as simbologias do filme
Entender as nuances do filme requer um entendimento prévio do projeto de cinema, que Kleber Mendonça Filho construiu em sua carreira. Dois exemplos disso são o “O som ao redor”, com ruídos cotidianos causando um grande desconforto em um cenário urbano e “Bacurau”, uma alegoria sobre resistência de um povo teoricamente esquecido do mapa com a visão exótica do Brasil por estrangeiros.
Fundamentalmente, o diretor traz à tona questões que vão além das telas e rompem a capacidade de interpretação lógica de alguns fenômenos cotidianos que por muitas vezes pode passar despercebido, com sons, povos e, no caso de “O agente secreto”, memória.
O que todos esses filmes tem em comum? Pouca obviedade narrativa, uma capacidade não convencional de falar de temas sensíveis e polêmicos por uma nova ótica. Essa é a assinatura de Kleber. Preconceito, ditadura, xenofobia, são temas sensíveis e que se tornam, muitas vezes, extremamente caricatos ao serem condensados em uma obra, mas o diretor vai além fazendo um cinema político.
Abaixo, podemos perceber algumas referências no longa metragem que perpassam ingredientes centrais da história com suas simbologias:
- História central: um homem que não era subversivo
Ele era apenas um pesquisador em uma universidade federal que utilizava de recursos públicos para realizar as suas pesquisas.

- Ambientação em Recife: a fuga dos centros urbanos entre RJ e SP
Utilizar como pano de fundo um cenário ambientado no Nordeste e não no Rio de Janeiro e em São Paulo.

- Lendas urbanas: perna cabeluda
Trabalhar as lendas urbanas, como o caso da perna cabeluda para amedrontar o público e imergir a história em um contexto local.

- Filme “Tubarão”: ícone da cultura trash
Trabalhar a cultura trash como a representação do medo e dos algozes da ditadura com o filme “Tubarão”.

- Carnaval: época de folia
Ambientar o filme na época do carnaval, o verdadeiro contraste de uma época sombria, que está bem longe de conter purpurina e confete.

Ditadura aplicada ao vestibular: memória dos personagens
Falar sobre memória de uma forma pouco óbvia é o desafio de Kleber Mendonça Filho em “O agente secreto”. O diretor utiliza de uma narrativa pouco convencional para trabalhar elementos que são fontes de semiologia de um período sombrio e amedrontador como a ditadura militar.
Percebemos que todos os personagens tem uma relação com o passado da ditadura, com memórias. Ou seja, esses personagens circundam o protagonismo do lugar da memória da ditadura entre essas histórias que por muitas vezes foi fragmentada por conta da quebra da identidade dos personagens. São muitos questionamentos e dúvidas, mas as histórias sobre ditadura fazem isso com as pessoas. Não há desfecho, explicação, direcionamento. Só existe dúvida, inquietação e muitos tormentos.
De acordo com o professor Celso Castro, diretor da Escola de Ciências Sociais (FGV CPDOC), o golpe de 1964 foi um movimento político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 com o objetivo de depor o governo do presidente João Goulart.
“Sua vitória acarretou profundas modificações na organização política do país, bem como na vida econômica e social. Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político”, disse ele.
Esse é um tema que possui um vasto acervo de entrevistas do FGV CPDOC, onde é possível encontrar diversos depoimentos que versam sobre o tema, como por exemplo, os que integram o projeto "1964 e o regime militar".
Se você quiser saber mais sobre o tema e estudar para o vestibular, clique aqui.
Mais filmes para estudar para o Vestibular
Gostou desse conteúdo sobre “O agente secreto”? Aqui no Blog do Vestibular você pode conferir também mais posts sobre indicações de filmes.
Confira abaixo: