Você já parou para pensar que a paixão nacional também é objeto de ciência? Quando o assunto é futebol, a primeira imagem que vem à cabeça costuma ser o estádio lotado e o grito de gol. Mas, para além das quatro linhas, o esporte é uma ferramenta poderosa para entender como a sociedade brasileira se formou e é exatamente isso que os cientistas sociais estudam.
Para mostrar como isso funciona na prática, mergulhamos no projeto Futebol, Memória e Patrimônio, coordenado pelo professor Bernardo Buarque, da Escola de Ciências Sociais (FGV CPDOC). O resultado é um acervo de história oral único no país e um exemplo concreto do que se faz em uma graduação em Ciências Sociais.
O que o futebol tem a ver com as Ciências Sociais?
Na FGV, os estudantes aprendem desde cedo que a pesquisa é fundamental para analisar criticamente a realidade. Foi essa premissa que motivou o projeto, desenvolvido no contexto da Copa do Mundo de 2014, em parceria entre o FGV CPDOC, o Museu do Futebol e a Fapesp.
"O futebol é um fato social total, porque ele é uma lente através da qual a gente pode enxergar tudo que acontece na sociedade, desde a economia, o mercado, a organização do Estado, até a forma pela qual a migração se dá no mundo hoje", explica o professor Bernardo Buarque.
O que é história oral e como ela funciona na prática?
Como documentar a história de algo tão dinâmico quanto o futebol? A resposta está na metodologia de história oral. Ao longo de dois anos, a equipe de pesquisa entrevistou 54 jogadores da Seleção Brasileira que participaram de oito Copas do Mundo, do torneio de 1954 ao de 1982.
Esses depoimentos se tornaram documentos e fontes primárias riquíssimas. O banco de entrevistas, depositado no FGV CPDOC e no Museu do Futebol, inclui craques como Tostão, Falcão e Zico, além de uma entrevista inédita com João Havelange, ex-presidente da Fifa.
"A gente pode ver pelas lentes da biografia desses atletas, muitos deles com origem humilde, a mobilidade que o esporte é capaz de proporcionar", destaca o professor. Um arquivo histórico não é feito apenas de papéis antigos, mas de vozes, memórias e experiências que ajudam a contar a história do Brasil.
O que as entrevistas revelam sobre o Brasil?
Os depoimentos coletados pela pesquisa iluminam processos sociais que atravessam o século XX brasileiro:
Mobilidade social pelo esporte
As trajetórias de jogadores de origem proletária mostram o futebol como um dos raros canais de ascensão em um país marcado pela herança da escravidão, tema caro à sociologia brasileira desde os anos 1930.
Profissionalização e mercado
As entrevistas registram a transformação do jogador amador em trabalhador do esporte, revelando as mudanças nas relações de trabalho no país.
Migração e circulação internacional
As carreiras dos atletas antecipam fenômenos de mobilidade global que hoje são objeto central das Ciências Sociais.
Memória e afeto como fonte histórica
A Seleção de 1982, derrotada de forma dramática, permanece como a lembrança mais marcante para o próprio pesquisador: "O futebol encanta porque tem uma dimensão plástica, acrobática, que vem do circo, da capoeira, do samba", relembra Buarque. É essa conexão entre afeto, identidade e sociedade que a história oral consegue capturar e que documentos oficiais não registram.
Se você tem curiosidade para entender como o mundo funciona e quer ter acesso a acervos como o do FGV CPDOC durante a graduação, conheça o curso de Ciências Sociais da FGV.